Seminário da CNI reforça transportes de alta capacidade e cidades densas

O seminário “Desafios da Mobilidade Urbana do Brasil”, realizado nesta quarta-feira, no Windsor Atlântica Hotel, reforçou os modais de transporte público de alta capacidade, como trens e metrôs, e aproximou os dilemas de mobilidade do problema do espraiamento urbano.



O evento, produzido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o jornal O Globo, teve a participação do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda; do presidente do IAB, Sérgio Magalhães; do subsecretário executivo de Transportes do Rio de Janeiro, Carlos Eduardo Gonçalves Maiolino; do presidente do Conselho de Infraestrutura da CNI, José Mascarenhas; do diretor de Políticas e Estratégia da CNI, José Augusto Fernandes; e do presidente do Instituto Urbem, Phillip Yang. O debate foi mediado pelo jornalista William Waack.

O presidente do IAB fez críticas a algumas transformações urbanas em andamento na cidade. “O Rio está implantando projetos concebidos nos anos 60 e superados nos anos 80 e 90. Pelo ausência de planejamento, ainda estamos no afã de realizar projetos pensados lá atrás, em outro contexto, em outra situação da cidade”, defendeu.

A ampliação da ocupação territorial das cidades é vista com preocupação por Sérgio. A cultura do automóvel, presente no Brasil, foi apresentada como grande vilã do espraiamento indevido de cidades, mas o arquiteto ampliou o universo de responsáveis: 

“Não é só o carro que induz a expansão territorial. O poder público também faz isso. Casos como o de Macaé, onde o novo fórum foi construído fora da cidade, e o de Goiânia, que ganhou um centro administrativo longe da zona urbana, numa área de interesse da indústria imobiliária, são emblemáticos”, afirmou ele.

Magalhães defendeu ainda a transformação em metrô da rede ferroviária da Região Metropolitana do Rio: “Mais de 70% da população se beneficiaria diretamente por essa medida. O Rio tem o mais alto índice de perda de tempo no deslocamento casa x trabalho do Brasil. Isso seria sensivelmente reduzido.”

O prefeito de Belo Horizonte apresentou a meta de dar à capital mineira um percentual de uso de transporte público semelhante ao de Barcelona, com 70% da população em ônibus, trens e metrôs. Ele informou que investirá R$ 23 bilhões em mobilidade até 2030 – mais da metade do total previsto para a área de infraestrutura. 

Outra meta do prefeito é estimular a densidade em várias regiões. “Ano que vem, entra em pauta a votação de um projeto de lei para planos sub-regionais. Vamos transformar uma metrópole sub-dispersa em uma metrópole poli-compacta”, disse Lacerda.

O subsecretário executivo de Transportes do Rio atribuiu uma parte importante do problema de mobilidade da cidade à quantidade de carros existentes na cidade: “Até 10, 15 anos atrás, a lógica de mobilidade era a do automóvel particular. É fundamental encarar agora a lógica de que a mobilidade urbana não depende do transporte particular, e sim do público.”

O forte investimento em BRTs foi defendido por Maiolino. “Pela primeira vez, a prefeitura do Rio investe em transporte público. Teremos uma malha de 360 quilômetros, entre BRT, trem e metrô. Em 2016, vamos passar dos atuais 17% da população, que utiliza o transporte de alta capacidade, para 52%”, disse o subsecretário.

Mascarenhas, da CNI, reforçou a importância da reintrodução de uma cultura de planejamento nas administrações públicas das grandes cidades brasileiras. “Não há tradição de planejamento nas cidades. Elas crescem por desordem de governança”, disse o diretor.

Ele sugeriu ainda a criação de um mecanismo de apoio às zonas urbanas. “É dever da União e dos Estados o auxílio. Seria de bom tom a criação de um Fundo Nacional de Desenvolvimento das Cidades”.

O presidente do Instituto Urbem, Phillip Yang, apresentou uma proposta a grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro: a eliminação de vagas públicas para carros nas ruas. Aideia é que a supressão das vagas geraria espaço para a ampliação das calçadas públicas, com ciclovias e áreas verdes. Novas vagas seriam geradas através de Parcerias Público-Privadas (PPPs), em estacionamentos verticais.

“É importante dizer que a pessoa nasce com direito à vida, à saúde, à educação, mas não nasce com direito à vaga de estacionamento”, ponderou.