Romeu Duarte escreve em sua coluna no jornal O POVO: O monstro na arquibancada

Romeu Duarte, Conselheiro Vitalício do IAB- CE e Ex-Presidente da entidade Nacional, escreve em sua coluna semanal, no Jornal O POVO.

Durante a semana, pareceu oscilar entre ir e não ir. Seu comportamento errático fez com que os assessores se descabelassem, os puxa-sacos se dividissem, os ministros se entreolhassem. “São Paulo jamais foi uma praça simpática ao futebol da seleção brasileira e quanto mais a alguém no meu posto”, pensava ela, nos raros momentos de tranquilidade na solidão do gabinete presidencial, o olhar descansando na linha horizontal do Planalto Central. Estar lá ou não, o dilema correspondente ao hamletiano “ser ou não ser”. O projeto de governo e poder sairia arranhado caso houvesse algum constrangimento? A memória buscava no passado situações semelhantes envolvendo pessoas na sua mesma posição. “Arre, já passei por tanta coisa ruim, por tanto inferno, o que poderá ser pior que isso?”.


 

A empolgação com as ideias socialistas veio logo após o golpe de 1964. A opressão, a mordaça, a falta de liberdades democráticas tangeram-na junto com seus amigos, como a tantos jovens de sua geração, para os braços da luta armada, num tempo de chumbo e de pouquíssimas alternativas dignas. Fez parte de organizações políticas clandestinas, a leitura e análise do catecismo marxista noite enfumaçada adentro. A moça de cabelos curtos e desleixados, com grandes óculos à Courréges no rosto interrogador, era Estela, Luíza, Patrícia e Wanda quando convinha. O primeiro casamento, arranjado às pressas, não durou muito em meio àquele vendaval. O segundo foi interrompido por sua prisão no aparelho imundo. Disposta a tudo, como sempre fora, estava agora à disposição do horror.

 

A subida na rampa do estádio foi dureza, mas ela suportou o exercício muito bem. “Deveria perder uns quilinhos, caminhar, andar mais de moto, mas cadê tempo?”, lamentava-se em silêncio. No elevador, a postura formal de quem cumpre um dever. Ao seu lado, no camarote, um magote de bacanas se confraternizava com os falsos salamaleques de praxe. “Tenho tanto a dizer a esse sujeito aí, tanta coisa engasgada, que nem sei”, matutava calada, o olho duro no calvo dono da festa, que sorria e festejava com os circunstantes. A filha fazia selfies dela e da mãe e respondia a inúmeros e-mails. As podres entranhas do monstro abominável já se agitavam nessa hora, mas ela ainda não sentia a vibração. “Que tudo passe depressa e sem marca”, pediu, “tal como aquele caranguejo mau de uns tempos atrás”.

 

O dizer de Umberto Eco ecoava nos seus ouvidos moucos de pancada, e ela sem entender: “Se há algo que excita mais os humanos que o prazer é a dor. Sob tortura, tudo o que ouvimos e lemos volta-nos à mente. Sob tortura dizemos não só o que quer nosso inquisidor, mas o que imaginamos possa-lhe dar prazer. Uma ligação diabólica se estabelece”. No aposento minúsculo, úmido e escuro, sem pai nem mãe, as perguntas sobre o paradeiro de beltrano, sicrano e fulano eram repetidas à exaustão. O cardápio da violência era farto. Se lá fora era dia ou noite, ela não poderia dizer. Sabia apenas que deveria perseguir o viver segundo após segundo, mãozada após mãozada, eletrochoque após eletrochoque. “Eita, que cansei de bater. Afinal, o que querem vocês, comunistas de merda?!”.

 

No sistema de som, o anúncio trovejante de que ela está presente na arena recém- inaugurada. “Como demorou para ficar pronto este estádio, tantas idas e vindas, mil negociações, guindaste caindo, gente morrendo e ainda inacabado”, resmungava para dentro, enquanto se acomodava no assento que lhe fora reservado. Súbito, aquela senhora, hoje uma alta autoridade, que também fora aquela moça militante de muitos codinomes, economista, secretária e ministra de estado, viu-se diante do ensurdecedor monstro de total escuridão e nenhuma rutilância, aquele mesmo que cevamos cotidianamente, por um caminho ou por outro, com o nosso autoritarismo e a nossa intolerância. Na volta, no frio carro oficial, ela, sozinha, conversava com seus botões: “Claro que foi pênalti! Puxaram o Fred pela camisa!”.

Fonte: http://www.opovo.com.br/app/colunas/romeuduarte/2014/06/23/noticiasromeuduarte,3270824/o-monstro-na-arquibancada.shtml