“Vocês, intelectuais , nunca dizem as coisas direito, é um alinhavado monstro, é igual a ir à Barra do Ceará via Messejana, lá vai…”, ralhou ele, inconformado com a resposta.


A Ricardo Muratori.

“Bom dia. Por favor, leve-me à Reitoria”, disse eu ao motorista de praça, atrasado para a aula de projeto. “Bom dia. Voltaire, seu criado”, respondeu o profissional do guidom, dando marcha ao possante. “Ah, enciclopedista?”, brinquei. “Antes de ser taxista, vendia de tudo, doutor”, devolveu ele, “menos enciclopédia, que é mercadoria pesada e bicho bruto não dá valor”. Sem deixar quicar a redonda, emendou de primeira: “E aí, o viaduto do Cocó, sai ou não sai?”. “Não sei. Seria melhor a Prefeitura fazer um concurso para escolher a melhor proposta”. “Concurso?”, cambiou, “se for esperar por concurso vai ser igual ao menino lá de casa, até hoje esperando ser chamado pelos Correios…”. É, aquela tinha tudo para ser uma viagem longa e difícil.

“Vocês, intelectuais, nunca dizem as coisas direito, é um alinhavado monstro, é igual a ir à Barra do Ceará via Messejana, lai vai…”, ralhou ele, inconformado com a minha resposta. “As coisas nesse campo são complexas, meu amigo”, ponderei, “há que pensar muito antes da decisão”. “De tanto pensar morreu um burro, doutor”, riu-se, “pois eu sou é a favor da obra, que se lasque quem é do contra”. E atiçou: “E a ponte estaiada, é pra valer ou não é?”. “Meu caro”, falei, “sabe que há outras alternativas viárias bem mais simples e baratas?”. “Ah, é pra fazer concurso também? Desse jeito, a nossa vida vai ser um concurso atrás do outro. Legal, sei não, é um negócio meio assim sei lá, o doutor não dá uma solução. O senhor é desse jeito também com os seus alunos?”.

Aí foi a minha vez de curtir: “Boto eles para refletir sobre os problemas urbanos. Nada como uma boa pulga atrás da orelha, que é a mãe da idéia transformadora”. “Pulga?”, espantou-se ele, “Deve ser uma coceira só essa sua classe…”. De repente, calou-se. O olhar cismado no retrovisor parecia dizer: “Esse cara trata os alunos dele igual a cachorro”. Mais à frente, disparou: “Por falar no inseto, aquele deputado baixinho é uma pulga na camisola do governador, não deixa o homem em paz, égua…”. “É missão do Legislativo fiscalizar”, esgrimi. “Rapaz, a gente não combina mesmo, né?”, impacientou-se, “Até agora não demos uma dentro”. “Não precisamos concordar”, disse-lhe, “conversa boa é assim, franca, cada um com seu ponto de vista, sua opinião”.

“Mas eu gosto quando concordam comigo!”, alterou-se, “Este táxi é a minha casa, passo o dia nele, aqui só entra quem eu quero. Quando o senhor deu a mão, pensei: “Taí um cabra gente fina, vai concordar comigo em tudo”. Que nada, só bola fora. Vou lhe dar a última chance: o senhor aceitaria ser atendido por um médico cubano?”. “Claro, sem problema, são bons profissionais, humanitários, prestimosos”, respondi-lhe. “Pois para mim, professor, é um bando de enfermeiros melhorados! Já viu a cara deles? Cada negão medonho que Deus me livre e guarde!”, abarcou, não sem dar uma no cravo e outra na ferradura: “O senhor é moreno, mas é um acadêmico, um sujeito decente, mesmo teimoso. Aliás, o distinto também trabalha ou só dá aula?”.

Quando já começava um interminável monólogo sobre a insegurança reinante, fui salvo pelo apagão, que fez sumir as luzes do semáforo. Corrida paga, decidi enfrentar os dois quarteirões restantes a pé, deixando meu inflexível interlocutor e seu carro de aluguel sob uma fina chuva de caju. No caminho para o trabalho, lembrei-me de João Brígido e de sua célebre visão dos cearenses como bons, burros e bravos. Perdido neste e em outros profundos pensamentos, quase enfartei com a buzina estridente e o alto volume daquela voz recém conhecida: “Se estava liso, era só dizer, macho, que eu dava uma carona…”.

Fonte: Jornal O POVO