Engarrafamento, vias estranguladas, grande quantidade de veículos, falta de ciclovias, buracos nas ruas. Esses são alguns dos desafios que o fortalezense enfrenta, atualmente, quando decide sair de casa e se deslocar para qualquer canto da cidade.
Hoje, perde-se muito tempo para ir de um lugar a outro. Um trecho que, normalmente poderia ser feito em menos de meia hora, nos horários de picos, pode-se levar mais de uma hora. Para alguns especialistas, Fortaleza tem um déficit crônico em termos de planejamento urbano.
Talvez por isso, o tema Mobilidade Urbana tenha ganhado destaque na discussão entre os candidatos à Prefeitura de Fortaleza, para a eleição deste ano. A área garantiu não apenas espaço no plano de governo dos prefeituráveis, mas também é citada como uma das prioridades de governo daqueles que pretendem governar a quinta maior capital do País, nos próximos quatro anos.
Os candidatos já lançaram algumas propostas para a Mobilidade urbana como: corredor exclusivo para ônibus, interação entre metrô e ônibus com bilhete único, construção de mais vias expressas, implantação de ciclovias e vias exclusivas para pedestres, melhoria das calçadas, dentre outras.
Estudiosos alertam que para mudar o cenário atual e fazer com que o cidadão possa contar com um sistema de mobilidade urbana moderno e adequado é necessário fazer um planejamento, interligar ações e priorizar o transporte coletivo ao invés do privado.
O engenheiro Francisco Pessoa de Araújo, em artigo do livro do Centro Industrial do Ceará (CIC), aponta que o grande problema em relação à mobilidade urbana é o conflito entre transporte coletivo e individual. No Brasil, revela, sofremos influência do “modelo americano” que preza a ideia de que cada pessoa tem direito ao próprio veículo.
Para ele, esse é um problema crônico, entendendo que precisamos, com urgência, partir para o “modelo europeu” que privilegia o transporte coletivo ao invés do particular. Mas não adianta aumentar o número de ônibus, segundo revela. No seu entendimento, uma boa saída é o metrô.
“Ora, com o trânsito em Fortaleza cada vez mais congestionado, o tempo de viagem vai aumentando. E se forem colocados mais ônibus, ao invés do tempo de viagem diminuir, o que de fato acontecerá será a ampliação do congestionamento de trânsito. É um círculo vicioso”, compreende.
Também a afirmativa de que quando o transporte público tiver qualidade, as pessoas vão deixar o carro em casa, para o engenheiro, é um ledo engano. “Na verdade, dificilmente vamos utilizar o transporte coletivo enquanto tivermos alternativa individual. As pessoas que hoje utilizam o transporte coletivo o fazem porque não têm essa alternativa, não têm a capacidade econômica de adquirir o seu próprio veículo”, pontua.
Outra questão, revela, é a qualidade versus o custo, ou seja, a necessidade de melhorar a qualidade do transporte coletivo, mas Francisco Pessoa questiona quem arcará com os custos. “O problema é que a tradição no Brasil é que quem paga a conta é quem paga a tarifa; e quem paga a tarifa normalmente é a população de baixa renda”, observa.
Custo
O engenheiro atesta que o metrô seria uma solução, mas não a única. Ele cita a via exclusiva para ônibus e táxi com passageiro e também o BRT (Bus Rapid Transit) ou metrô sobre pneus, uma iniciativa encontrada em Curitiba. Para ele, o BRT tem um médio custo de implantação, comparado ao metrô e baixo custo de manutenção.
Conforme o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), João Bosco Furtado Arruda, Fortaleza não possui um sistema de transporte coletivo que responda à necessidade da população, enquanto isso, a Capital cearense tem de acolher, por mês, mais de seis mil veículos particulares.
Para ele, é preciso planejar a cidade: ofertar educação, saúde, trabalho, lazer e entretenimento nos bairros, fazendo com que o cidadão desloque a pé ou de bicicleta para esses locais. É preciso olhar também, destaca, para a organização do solo urbano da cidade, fazendo com que num espaço onde existem duas casas se construa um prédio com mais de 80 apartamentos, aumentando, assim, o fluxo de veículos nesses locais.
Alternativas
João Bosco concorda com alternativas de ciclovias, faixas exclusivas para ônibus e o metrô, mas alerta que todas essas ações devem ser integradas. Ele argumenta que o cidadão tem de ter opções de transporte público ou mesmo de se deslocar a pé.
Já o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifor, Amando Costa, aponta que Fortaleza precisa de planejamento para a infraestrutura viária. Segundo analisa, são muitos carros para poucas vias, além disso, ele considera que a última grande ação para a mobilidade urbana foram os terminais de ônibus que já não suportam a demanda.
Amando Costa alerta ser necessário pensar em soluções a curto e médio prazo, mas também projetar para o futuro, entendendo que o próximo prefeito terá de se perguntar como estará o trânsito em Fortaleza daqui a 20 ou 30 anos. “Um planejamento integrado de médio e longo prazo é necessário. Tem de pensar na frente”, reforça.
Por uma efetiva mobilidade urbana
“Mobilidade urbana deve ser entendida como a relação social ligada à possibilidade da mudança de lugar”
Considerando-se a sensível precariedade das condições atuais de mobilidade urbana na cidade de Fortaleza, faz-se imperativo o debate acerca do seu caráter essencial, e das implicações dela decorrentes na qualidade de vida de todos os cidadãos fortalezenses.
Posto em relevo que a mobilidade vai além da visão corrente de mero deslocamento, deve-se compreendê-la, a partir das ideias do geógrafo Jacques Lévy, como a relação social ligada à possibilidade da mudança de lugar, reforçando ainda mais a imprescindibilidade de uma atenção redobrada em sua abordagem, dado que se trata de um conjunto complexo, envolvendo diferentes atores, atividades, escalas, espaços, modalidades, tempos, entre outros.
Ainda assim, poderíamos elevar qualitativamente os indicadores da mobilidade urbana em Fortaleza se nos fosse pelo menos garantida a efetividade do Plano Diretor Participativo (PDP For), em vigor desde 2009, no qual a acessibilidade e a mobilidade estão elencados dentre seus objetivos. Um capítulo específico é destinado a tratar da política de mobilidade urbana na Cidade, organizado em seis seções, versando mesmo que de maneira menos abrangente, de alguns de seus componentes: acessibilidade, sistemas de circulação, viário e de transportes. Ali já estava previsto um prazo de dois anos para elaboração e implementação do Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Fortaleza, do qual até hoje, só se ouvem promessas.
Enquanto isto, vivenciamos no cotidiano a falta de acesso ao transporte público, de fluidez e segurança na circulação de pedestres, ciclistas e veículos, e de liberdade na escolha do modo de locomoção, apenas para citar alguns dos problemas relacionados à questão da mobilidade urbana.
Resta então, a nós cidadãos, certa sensação de descrédito nas ações dos gestores públicos, especialmente quando somos impactados a todo o instante por diversas obras de infraestrutura viária, sem sabermos ao certo como se relacionam ou se foram planejadas considerando perspectivas futuras, a partir de visões estratégicas e integradas aos demais componentes deste grande sistema que é a cidade.
Torna-se necessária uma cobrança enfática, principalmente no momento em que o período eleitoral se aproxima, para que os candidatos a futuros gestores assumam compromissos no sentido de garantir a efetivação desta política e de seus desdobramentos em planos e ações concretas, mas relacionadas, sob pena de que não estejamos novamente diante de mais uma “letra morta” a ilustrar o histórico de planejamento urbano, no qual as leis não se aplicam de fato. Ou será que ficaremos limitados a uma “deficiência cívica”, no dizer de Milton Santos, assistindo passivamente a deriva de uma cidade que se faz ao sabor de todo tipo de intempéries?
Acorda Fortaleza!
Fontes: –Fernanda Rocha – Arquiteta e urbanista, professora e pesquisadora da Universidade de Fortaleza
-O povo online
-Diário do Nordeste