Em março de 1996, foram iniciadas as obras do Terminal Portuário do Pecém e de sua infraestrutura. Foram investidos cerca de R$ 400 milhões em quase seis anos de construção


Sérgio de Sousa
FOTOS: STÊNIO SARAIVA

A inauguração oficial do Terminal Portuário do Pecém ocorreu em 2002, quando movimentou 331,5 mil toneladas de cargas. Suas vantagens são calado, proximidade com rotas internacionais

Operações comerciais do Terminal começaram em novembro de 2001. Em 2003, produtos locais chegaram a 60 países

Em 2011, contêineres são descarregados

Pensar estrategicamente a função que o terminal portuário deverá desempenhar dentro das realidades delineadas para a economia cearense para os anos seguintes foi uma preocupação tomada antes de construir o Porto do Pecém, e vem sendo trabalhada para as futuras expansões dentro do Plano Diretor já traçado para o Porto do Pecém. Contudo, as bases desta estratégia são questionadas pelo presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Estado (Adece), Roberto Smith.

“Eu acho que o porto se ressente de uma visão um pouco mais avançada e projetada na sua real importância para o desenvolvimento do Nordeste, do Ceará e do Brasil. Até hoje”, analisa Smith. “O porto, no início de sua construção, passou por um processo de planejamento, nos desenhos iniciais, e que até hoje ainda fazem parte do seu desenho”, completa.

Erro

O presidente da Adece, que já chegou a fazer consultoria no planejamento de longo prazo para o Porto do Mucuripe, no início da década passada, acredita que o erro está em ter voltado o planejamento do porto para permitir as atividades de importação e exportação dos produtos ligados a usinas de refino e siderurgia, especialmente esta última.

“Isto não é o ideal, porque, na verdade, você pensar uma siderúrgica como indústria âncora, todos os manuais de economia regional que eu estudei sempre nos mostram que uma indústria siderúrgica tem baixos efeitos de integração dentro das cadeias produtivas, e mormente uma usina voltada para a exportação de placas, que é o caso da nossa. Não há o que esperar”, afirma. Mas pondera: “É claro, todavia, que num estado como o Ceará, onde você tem uma debilidade produtiva muito grande, o efeito é importante. Não estou diminuindo o efeito disso, mas é que tem que ser visto dentro dos seus limites”.

Já a refinaria, destaca Smith, pode representar bem mais para a economia cearense, justificando, portanto, o direcionamento planejado do porto para as atividades do refino. “Agora, a refinaria realmente tem um efeito estruturador de cadeias produtivas muito mais forte”, reforça.

Contraponto

O posicionamento do presidente da Adece contradiz o que foi pensado inicialmente para o Terminal Portuário do Pecém, pelos meios políticos. O então governador Tasso Jereissati, à época da assinatura da ordem de serviço para as obras do porto, em maio de 1996, chegou a afirmar: “Com o Pecém, o Ceará fica mais perto de conseguir a instalação de uma siderúrgica do que da refinaria de petróleo. “Siderúrgica é mais importante para o Ceará do que refinaria”, dissera em discurso. De lá pra cá, as coisas mudaram bastante, inclusive a concepção de tais projetos.

Decisão pelo modelo ´off shore´ foi acertada

Bem antes de se decidir pela criação de um novo porto no Ceará, pensava-se na refinaria e na siderúrgica para o Ceará. Chegou-se, inclusive, a pensar que o Porto do Mucuripe poderia responder pelas movimentações dos dois empreendimentos. Mas, com o tempo, a possibilidade foi descartada, visto o crescimento da cidade nos arredores do terminal de Fortaleza.

“Um porto precisa ter dois acessos bons: marítimo e terrestre, e boas condições de abrigo. Viu-se, então, que era inviável no Mucuripe, pela questão da movimentação terrestre. Além disso, tinha por lá muito problema de assoreamento. São um milhão de metros cúbicos de areia que vem da Praia do Futuro ao Mucuripe”, lembra o presidente da Cearáportos, Erasmo Pitombeira.

Daí, a Marinha começou, em 1995, a fazer um estudo sobre onde se poderia construir um porto no Ceará. Em março daquele ano, os navios chegaram para fazer os levantamentos ecobatimétricos (determinação da variação das profundidades) da costa cearense. O levantamento foi do Pontal das Almas, no município de Barroquinha, a 447 quilômetros de Fortaleza, chegando à divisa com o Rio Grande do Norte, já nas imediações do município potiguar de Tibau.

O levantamento, então, concluiu: a melhor localização seria em Pecém. “O Pecém tem a profundidade de menos 15 metros mais próxima da costa. E fica próximo de Fortaleza, da BR-222 e de ferrovia, e era uma área pouco habitada”, justifica Pitombeira. Entre julho e dezembro daquele mesmo ano, foi feita a concepção do complexo Industrial e Portuário do Pecém e foram contratados os projetos básicos de engenharia.

Daí, já havia a decisão de que o porto deveria ser diferente do de Mucuripe, ou seja, seria off shore (fora da costa). “Vimos que fazer um porto on shore (na costa, como o de Fortaleza) barra a passagem de sedimentos. A conclusão era de que tinha que ser off shore, e tinha que ser no ponto mais próximo da linha de costa”, aponta. E assim foi feito.

“A ideia de fazer porto off shore foi vitoriosa. Foi o processo difícil, por conta da altura das ondas por lá, tinha que saber onde fazer o enrocamento, permitir o transporte de areia, que é muito intenso no Ceará. Foi uma obra de engenharia importante”, avalia o presidente da Adece, Roberto Smith.

Fonte: Diário do Nordeste