Romeu Duarte, Conselheiro Vitalício do IAB- CE e Ex-Presidente da entidade nacional, escreve em sua coluna semanal no jornal O POVO.
Baiano de nascimento, o grande Rodolfo Teófilo dizia a quem o quisesse ouvir: “sou cearense porque quero”. Membro da Padaria Espiritual (atendia pela alcunha de Marcos Serrano), o autor do áspero A Fome e inventor da cajuína (que os piauienses acham que é coisa deles) não titubeava quando alguém, inconscientemente ou de propósito, desatava a falar mal do Ceará e dos rebentos deste chão. Sua firme posição em nosso favor exibia um homem não só em dívida com esta terra, mas que a idolatrava incondicionalmente, em seus acertos e doidices, como um filho choroso a uma mãe nem sempre extremosa.
Nos últimos dias, em meio a esta algaravia estridente e belicosa que tem tomado o cotidiano desta cidade, a voz de certa gongórica autoridade ecoou no plenário em defesa de procedimentos do seu líder. Traindo fundo preconceito contra alguns dos mais queridos pratos de nossa tradicional gastronomia, a fala atingiu em cheio os brios do nosso honrado paladar. Além da sabujice, o pronunciamento exalou vergonha pelas coisas nossas, afinal, que de comer decente temos a oferecer aos bacanas alinhados que nos visitam? Buchada, panelada, sarrabulho, paçoca?! Sacrebleu…
Reflito acerca dessas palavras a bordo de um fumegante prato de dobradinha (este pelo menos escapou à sanha persecutória do nobre deputado…), servido nas mesas populares do Mercado São Sebastião. Enquanto espero a cachaça que não ficou de vir, constato que o tal acepipe em nada fica a dever ao tal cassoulet da tão prestigiosa cuisine française, certamente inspiração para os banquetes reais defendidos com denodo pelo egrégio prócer. Entretanto, lá na França, mesmo sendo feita de restos e carne de terceira, se valoriza a comida local, rico patrimônio moldado pela fome de conflitos cruéis perdidos na noite dos tempos.
O problema parece ser mesmo psíquico e cultural. Explico-me: para quem sofre das síndromes da cancela (obrigado, Alan Neto) e da corda de caranguejo (muito grato, Rodger Rogério), tudo o que reluz do lado de lá é ouro. É tanto assim no repasto como também na arquitetura, na música, na moda e em outras expressões culturais, nas quais deve-se sempre esconder qualquer traço telúrico por desabonador. Contudo, como ser contemporâneo esquecendo-se as origens? Ah, que falta fazem vocês, Abelardo Montenegro e Martins Filho, o universal pelo regional a partir da psique da Praça do Ferreira…
Realmente, deve ser muito difícil para alguém, de modos refinados, viver numa cidade como Fortaleza, o canelau mangando de tudo, a chacota esgulepada reinando a torto e a direito, a vaia rasga-mortalha troando no meio do mundo, o calor véi empapando o pancake. Que tal uma merenda agora, din-din, chegadinha, gostosinho? Valha-me Deus, estou cheiinho, agradecido. Parede de cobogó? Não, pela hóstia, coisa de pobre. Ah, como eu queria juntar todas as sanfonas e fazer uma fogueira com elas lá na Praia de Iracema…Claro, os invisíveis não são somente aqueles que fazem malabarismo nos sinais.
Está feito o convite: bebamos, comamos, ouçamos, dancemos, leiamos, percorramos, vivamos Fortaleza intensamente, esta desconhecida e maltratada cidade, mulher paciente à espera dos nossos carinhos. Escutemos suas muitas histórias, conheçamos seus tantos caminhos, provemos dos seus variados sabores, atendamo-la em seus caprichos. Ousemos ser felizes sendo nós mesmos. O verso audaz de Blake está aí a nos estimular: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência”. O resto é cara feia e conversa mole.
Fonte: Jornal O POVO.